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 YO TE AVISÉ!

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Samuel
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MensagemAssunto: YO TE AVISÉ!   Dom Ago 24, 2014 9:57 pm

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Yo te avisé!



Por que as multidões se enfurecem?

Acomode-se, amigo, mesmo que esta história seja curta. Talvez eu sequer consiga terminá-la, dadas as circunstâncias em que me encontro.

Por que as multidões se enfurecem contra os que trabalham pelo bem das multidões?

Quando eu era criança, costumava ir frequentemente a bares comprar cigarros para o meu pai e, em uma dessas idas, ouvi pela primeira vez uma expressão que mudaria toda a minha vida.

Vis grata puellae.

Esta expressão tinha muitos significados e vinha de uma língua há muito extinta. Aparentemente foi escrita pela primeira vez por um alquimo-filósofo chamado Fonócles, e fazia parte de um livro cujo título era "As Bases de Uma Sociedade Justa - Um Manual Para a Liberdade, Igualdade e Felicidade da Nação".

Vis grata, ou mais precisamente, na sua integra, Vis grata puellae, literalmente " violência apreciada pela rapariga".

Quando um homem rico e bem vestido se aproxima de uma mulher devassa em uma taberna, lhe oferece um drinque e ela finge desinteresse temporariamente para que ele saiba que ela não é uma vadia qualquer que vai levá-lo para casa, tirar seu pau para fora da ceroula e chupa-lo por vinte minutos com uma sede equiparável à de um animal que caminhou dias a fio no deserto sem beber nada, mesmo que no fundo de sua alma com todas as suas forças seja isso que ela queira fazer:

Vis Grata Puellae.

Quando um povo serve a um rei tirano, que nada planta mas tudo colhe, que tira o pão da boca dos filhos imundos e maltrapilhos de seus súditos para da-lo a seu belo cão de raça chamado Noodles mas mesmo assim devemos servi-lo pois foram os Deuses com sua inteligência divina e seu amor incondicional pela criação que o colocaram lá, e festejamos o dia de seu nome, e abençoamos seu nome todos os dias, e queimamos aqueles e toda a obra daqueles que, como Fonócles, tentam abrir nossos olhos para a verdade das coisas:

Vis Grata Puellae, filhos da puta, viva os deuses e abençoado seja o rei!

Minhas mãos e meus pés  estão amarrados em um maldito tronco. Eles removem meu capuz como que para que eu veja como a multidão justa repudia os bruxos e qualquer ato de bruxaria quando na verdade a remoção do capuz mais parece um ato covarde de um mau vencedor que após o jogo vencido cospe na cara do adversário e mija no tabuleiro.

"Veja, veja como eles são imutáveis, veja como babam de fúria, veja como sua tentativa de mostrar a verdade das coisas não foi nada mais que uma jogada errada! Xeque mate, agora você é um homem morto, mas veja, veja como seus cartazes foram inúteis, veja, veja Pedro, veja, veja... heheheheh!!"

Eu vejo.

No meio da multidão que me amaldiçoa, meus olhos se concentram nos olhos da gitana. Ela está chorando? Não, não é choro, pois ela é uma mulher que por pouco não foi queimada como eu serei queimado em breve e que viveu nas ruas sofrendo todos os tipos de sofrimento que alguém que vive na ponta do rabo da sociedade poderia viver.

Não é choro, mas é quase.

O olhar dela se sobrepõe aos gritos como um colossal "YO TE AVISÉ, PIEDRO, NINÕ, YO TE AVISÉ!". e sua expressão é como a da mãe que por mais de cinco anos diz ao filho "não se envolva com aqueles rapazes desocupados da rua vinte sete porque eles são pilantras e vão acabar te botando em encrenca das brava, não fique bebendo com eles, saia, vamos trabalhar para arrumar a casa e comprar um vestido bonito para sua irmã Analia" mas no quinto ano está parada ao lado do corpo múltiplas vezes  esfaqueado do filho em frente a um bar caindo aos pedaços, só que surpreendentemente ela não chora, só olha o corpo do filho em silêncio enquanto a dor e a pena comem seus neurônios mais que cansados de mãe ajuizada:

“YO TE AVISÉ!”

E o fogo começa a AH! A acender e a lamber o mastro em que estou amarrado, e quanto mais o fogo sobe mais a multidão se alegra
BRUXO! QUEIMA O BRUXO ALMADISSOADO!

E eu sinto o fogo subindo e lambendo a ponta de meus dedos enquanto eu tento lembrar da última meia-hora em que eu disse mais de mil vezes que morreria em silêncio, como morreu Fonócles, mas os gritos começam a pular para fora de minha garganta com tanta força que começo a achar que minha cabeça vai explodir de dentro pra fora, e em um segundo eu olho para a gitana e vejo que ela está chorando pela minha pobre alma enquanto o fogo começa a subir imponentemente para lamber minhas pernas e meu pau.

E paro por um microsegundo (se é que isso existe).
E lembro de uma coisa que a Gitana me disse quando a conheci, suja e faminta no depósito de Thais:

“Miro que serás muy contente”.

E por um micro-microsegundo eu dou uma risada de felicidade porque pela primeira vez em toda minha vida eu tenho a prova final e indiscutível de que ela não tem nenhuma espécie de poder sobrenatural que a faz poder ver o futuro nas linhas da mão e que os deuses que ela serve são uma farsa mas enfim, que importância isso tem agora? Eu queimo, eu queimo, eu pago pelos cartazes de “O POVO TEM O PODER” que preguei em algumas casas de Thais durante a noite e a gitana me olha chorando do meio da multidão enraivecida enquanto sinto o fogo subir pela ponta do meu cacete como se ele fosse alguma espécie de pavil de algum barril de dinamite ou algo assim, e queimo, queimo, queimo e grito até minha garganta sangrar e...

Mãos fortes me sacodem do leito e em seguida sinto uma bofetada na cara, quando abro meus olhos vejo minha querida gitana extremamente puta da vida andando em círculos pelo meu cubículo bagunçado, catando minhas roupas sujas do chão, indignada, falando sem parar:

Pedro, esta en la huera de arrumare tus ropas e la miesa!!”

E eu amo sua voz levemente envelhecida pela idade, e amo ainda mais o fato de tudo ter sido um pesadelo que por pouco não me fez mijar na palha forrada em que durmo.

"No se puede dormire todo el dia como un bagabondo!  Mira que bagonça eso esta! E este odor?"

E por um microsegundo eu quase digo por qual motivo acordei tão tarde, mas consigo engolir a frase de volta no último segundo com uma terrível e macabra sensação de clareza, já meio esquecido do pesadelo que tive durante todo o resto da madrugada:

“Acordei tão tarde porque passei a noite espalhando cartazes por Thais, Jade”.





Miro que...:
 
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MensagemAssunto: Re: YO TE AVISÉ!   Seg Ago 25, 2014 1:38 pm

Foda, Samuca. Cru, poético, social, pessoal, tudo de uma vez sem perder nada. Muito bom. Só não entendi muito bem as partes em espanhol, é pra fazer alusão a ideia da gitana ou algo assim?
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Samuel
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MensagemAssunto: Re: YO TE AVISÉ!   Seg Ago 25, 2014 2:28 pm

Y2J escreveu:
Foda, Samuca. Cru, poético, social, pessoal, tudo de uma vez sem perder nada. Muito bom. Só não entendi muito bem as partes em espanhol, é pra fazer alusão a ideia da gitana ou algo assim?

Muito obrigado por ter lido, cara!

A gitana na verdade é uma personagem muito foda (chamada Madame Jade) do Caio que eu "roubei" e fiz dela minha por meia hora enquanto escrevia o texto. Ela mora com o Pedro, é uma cigana estrangeira que fala tudo em portunhol!
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Y2J
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MensagemAssunto: Re: YO TE AVISÉ!   Seg Ago 25, 2014 2:57 pm

Samuel escreveu:
Y2J escreveu:
Foda, Samuca. Cru, poético, social, pessoal, tudo de uma vez sem perder nada. Muito bom. Só não entendi muito bem as partes em espanhol, é pra fazer alusão a ideia da gitana ou algo assim?

Muito obrigado por ter lido, cara!

A gitana na verdade é uma personagem muito foda (chamada Madame Jade) do Caio que eu "roubei" e fiz dela minha por meia hora enquanto escrevia o texto. Ela mora com o Pedro, é uma cigana estrangeira que fala tudo em portunhol!

Ah, agora sim entendi. São tudo personagens reais mesmo, haha. Pensei que a personagem era alguém inventada, meio que fazendo parte do background do narrador.
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MensagemAssunto: Re: YO TE AVISÉ!   

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